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Por que os brasileiros têm lido menos?

Levantamento ‘Retratos da Leitura no Brasil’ mostra que país perdeu quase sete milhões de leitores desde 2019.

Por que os brasileiros têm lido menos?
Em números totais, o Brasil tem uma estimativa de 93,4 milhões de leitores, uma redução de 6,7 milhões em comparação com o último levantamento, realizado em 2019. - Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O interesse dos brasileiros pela leitura têm diminuído. De acordo com o 6º levantamento ‘Retratos da Leitura no Brasil’, divulgado em novembro de 2024, 53% dos entrevistados admitiram não ter lido nenhum livro, nem mesmo em partes, nos três meses anteriores à pesquisa. Pela primeira vez desde o início da série histórica, o percentual de não leitores é maior no país.

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O levantamento considera como leitura livros impressos ou digitais, de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos. Em números totais, o Brasil tem uma estimativa de 93,4 milhões de leitores, uma redução de 6,7 milhões em comparação com a última coleta de dados, realizada em 2019. 

Além disso, os números mostram que leitura por gosto diminui quanto maior a faixa etária: 38% das crianças entre 5 e 10 anos dizem ler por esse motivo, enquanto a porcentagem entre adolescentes e pessoas de até 24 anos varia entre 31% e 34%.

“É perceptível que boa parte dos estudantes não têm lido as obras literárias requisitadas [em sala de aula]. Apesar do amplo acesso por meio de bibliotecas físicas e até digitais”, explica Érica Fernandes Alves, professora do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

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Para ela, os jovens e adultos continuam sendo leitores, mas de outro formato, encontrado nas redes sociais. No entanto, esse tipo de leitura não é suficiente para substituir obras completas. 

“A fuga para textos mais simples se dá pelo apelo das mídias sociais, a internet e a própria mudança de pensamento do mundo moderno e globalizado”, afirma. “O cerne da questão está no tempo que as pessoas dedicam às redes sociais, como se apenas elas fossem o foco de suas vidas”. 

Nem quem está inserido no meio literário é imune à distração causada pela internet, como é o caso da escritora Michelle Joaquim. “Se você pensar quando a gente está na timeline do Instagram, por exemplo, que é o [aplicativo que] eu mais uso, o tempo todo é mudança de conteúdo. Às vezes, eu estou vendo uma coisa política super grave e logo em seguida vem um meme e eu já me envolvo com o humor do meme. Então nossas emoções ficam em um ziguezague maluco muito veloz e isso afeta muito nossa concentração”.

Uma população extremamente on-line

Segundo um levantamento feito em 2023 pela empresa britânica Proxyrack, o Brasil é o segundo país com o maior tempo de tela no mundo, cerca de 9 horas e 32 minutos por dia, atrás apenas da África do Sul, que tem uma média de 9 horas e 38 minutos. O Instagram e o Facebook, ambos da Meta de Mark Zuckerberg, estão entre os aplicativos mais utilizados no país.

Quem está na internet sabe: os brasileiros dominam as redes sociais. O exemplo mais recente é o engajamento massivo em absolutamente qualquer foto, vídeo ou entrevista com Fernanda Torres, indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2025 por sua atuação em ‘Ainda Estou Aqui’. 

No Instagram do Globo de Ouro, o vídeo do discurso de agradecimento de Fernanda, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz de Drama, foi visto mais de 77 milhões de vezes. Na mesma página, nenhuma outra publicação com celebridades de fama internacional ultrapassou 8 milhões de views.

Quando o X (antigo Twitter) foi brevemente banido no Brasil por determinação do STF, em agosto de 2024, a jornalista americana Taylor Lorenz explicou o fenômeno como “a queima da biblioteca de Alexandria para os fandoms”. Nas últimas horas da rede social no país, muitas das páginas criadas por fãs para publicação de conteúdos sobre celebridades, com milhões de seguidores e alcance global, revelaram que eram administradas por brasileiros. 

A maneira como as pessoas consomem conteúdos hoje em dia chega a afetar a maneira como Michelle cria os textos que publica em suas redes sociais. “Eu acho que isso de certa forma expandiu minha produção, porque eu passei a me preocupar em escrever textos mais curtos e impactantes para atrair a atenção e [converso sobre] isso com outros escritores, como às vezes a gente reduz o tamanho do texto porque quer fisgar o leitor”. 

Apesar dessa adaptação, a autora de ‘A Última Vez que Duvidei de Mim’ não se preocupa, como escritora, pois acredita que sempre haverá quem goste de ler obras mais substanciais e publicadas. No entanto, enquanto fã de literatura desde pequena — “Sou muito grata à narrativa porque eu entrei nesse universo da linguagem e isso salvou minha infância e adolescência de uma profunda solidão” —, ela se aflige com o desinteresse atual.

“As redes sociais fazem parte da nossa vida, é inegável esse fato, porém, elas devem ser dosadas, isto é, as pessoas devem dividir seu tempo de entretenimento com outras atividades, dentre elas, a leitura, que estimula a criatividade, desenvolve o vocabulário, amplia o conhecimento de mundo, entretém e propicia uma outra série de benefícios. A ‘saúde intelectual’ é, de certo modo prejudicada quando esse equilíbrio é quebrado”, explica a professora.

Como criar o hábito da leitura?

Tanto Érica quanto Michelle dão dicas parecidas sobre como retomar ou criar o interesse nos livros. As pessoas devem procurar por títulos sobre assuntos que já fazem parte de suas vidas, baseados nas mídias que consomem. Por exemplo: fãs de filmes de ficção científica podem se interessar por livros do gênero; jovens, que já são naturalmente mais visuais, têm a possibilidade de se encontrar em histórias em quadrinhos e mangás; gerações de crianças brasileiras desenvolveram o gosto pela leitura com os gibis da Turma da Mônica.

“[Criar] uma rotina também ajuda, começando devagar, todo dia ler 10 minutos, depois aumentar o período”, explica Érica. “Outra dica é abusar das mídias e gêneros. Hoje temos os dispositivos eletrônicos, ou e-readers que, para aqueles ligados em tecnologia, têm um apelo interessante. Não é necessário iniciar o hábito da leitura com um livro longo, existem livros de contos, crônicas, poesias. A dica seria ler um conto/crônica por vez, ou um número limitado de poemas por dia”, completa.

Para Michelle, manter sempre um livro por perto também contribui. “É sempre bom ter um livro na bolsa para, em qualquer momento de espera, você ir para esse livro, porque o que a gente faz, geralmente, em alguma fila ou no ônibus, é pegar o celular".

Outro ponto, levantado pela professora em sala de aula e percebido por Michelle durante a infância, é como os livros são um espaço de representatividade, no qual o leitor pode se enxergar, além de expandir a realidade ao mostrar outros mundos. “A literatura não pede passagem ou permissão, ela simplesmente transgrede imposições, autoritarismos e desmandos, propiciando um senso de liberdade e autonomia”, pontua Érica.

“Eu lembro que minhas primeiras leituras me auxiliavam muito a me conectar comigo mesma, me ajudavam a entender o que eu sentia sobre o que estava acontecendo, a ampliar minha percepção sobre quem eu era no mundo”, explica Michelle. “Sérgio Vaz tem um poema que diz ‘Quem lê enxerga melhor’ e eu acho que é muito sobre isso também”.

Maringa.Com
Por Vanessa Santa Rosa